Dia Mundial da Infância: Algumas Considerações sobre a Psicanálise com Crianças

“Uma alta porcentagem de consultas é motivada, ao que parece, por “distúrbios escolares”. Se existem dificuldades escolares de origem puramente pedagógica, também não deixa de ser verdade que esse sintoma encobre, quase sempre, outra coisa. É não entendendo ao pé da letra o pedido dos pais que o psicanalista permitirá que a porta se entreabra para o campo da neurose familiar, dissimulada, fixada no sintoma do qual a criança se torna o apoio.” (MANNONI, Maud – 1923).

Em teoria psicanalítica, é sabido que, são raros os escritos clínicos entendidos como registros de sessões infantis. Todavia, a documentação verbal e gráfica que Freud nos deixou de seus principais casos com crianças, o Pequeno Hans e o Homem dos Lobos, muito lhe serviram como fonte de pesquisa e desenvolvimento de algumas noções e pilares da psicanálise, como por exemplo, os mecanismos de defesa das estruturas psíquicas nas neuroses de angústia, fobias, conversões histéricas, bem como, ruminações e cerimoniais obsessivos. Tais clássicos, nos fornecem base de consistência para segmentar uma clínica de fundamentação teórica e pesquisa técnica.

No que confere ao tratatamento infantil, em especial, se faz necessário lembrar que, crianças não marcam consultas. Os pais marcam para falar de um filho, que muitas vezes está à margem e desconhece o movimento dos pais em contactarem um psicanalista. Nesse sentido, questões relativas à demanda e o desejo são postas na mesa, a partir do discurso parental que aparece em cena na primeira instância. Na escuta dos pais, nossa investigação volta-se para a tentativa de compreender se a criança apresenta uma demanda – um sintoma clínico, ou se ela é apenas a manifestação sintomática da sua família, ou presentifica sintomas de estrutura que surgem no processo de subjetivação – sintoma de infância.

Em entrevistas preliminares com os pais, quantas são necessárias? Não existe uma fórmula ou um padrão a ser seguido, o único imperativo a ser posto é: muito Acolhimento. Acolher esses pais que decidem lhe procurar para mostrar sua ferida narcísica mais dolorosa: ter um filho com problemas. A nós analistas infantis (dou ênfase à tal clínica com crianças e adolescentes, uma vez que ela só é possível, a partir da vinculação com os pais), não nos cabem julgamentos morais e de valores, o lugar de juízes, tampouco, nos posicionar, tomar partido, rivalizar com algum discurso. O Outro só dá o que tem e o que pode dar. É através desse olhar clínico de respeito e ética à subjetividade, ao Inconsciente e à história de vida de cada sujeito, que repetições de sintomas transgeracionais e familiares podem ser interrompidas.

Ao adentrar de modo efetivo na linguagem, a criança fala de si na terceira pessoa; afinal, ela é a terceira pessoa do trio pai, mãe e filho. Nos primeiros anos de vida, a criança ao dizer “eu”, ela significa de modo constitutivo “eu (minha mãe)”, ou “eu (meu pai)”, pois a noção da própria existência está, para cada um, concomitante associada a si mesmo situado em seu corpo, e relacionada com um Outro, que tem relação com outros. As primeiras entrevistas possibilitam ao analista estar em presença de um discurso – seja ele dos pais ou daquele do filho – que pode ser descrito “de alienado”, no sentido etimológico da palavra. De todo modo, pois, entende-se que ele não é o discurso do sujeito, legitimado, mas dos outros, ou da opinião. A experiência analítica por sua vez, visa permitir uma objetivação psicológica desse sujeito, que é a saída da criança de um discurso alienado, em muitos casos, apresentado por máscaras sociais. Seguramente, é comum aparecer na demanda dos pais, não somente uma demanda inconsciente que concerne ao seu próprio sintoma, mas também, ao sintoma da estruturação familiar.

As relações dinâmicas inconscientes pais-filhos, possuem valor estruturante sadio ou patogênico. Tal fenômeno induzido na escuta psicanalítca, denuncia certo limite da comunicação em transpor os limiares do dito pela palavra. Naquele ponto em que a linguagem termina, e a conduta motora continua a falar, quando se trata de “crianças perturbadas”, são elas que pelos seus sintomas, encarnam e presentificam as consequências de um conflito vivo, familiar ou conjugal, camuflado e aceito por seus pais. É a criança que suporta pelo não dito, o peso das tensões e interferências da triangulação pais-filhos, que recai sobre os últimos, as crianças, com efeito mais intenso, quanto mais se guarda ao seu redor, o silêncio e o segredo. Os sintomas de impotência que a criança pequena e o adolescente manifestam, são assim o porta-vozes de seus pais – uma ressonância às angústias ou aos processos reativos parentais. Quanto mais jovens são os seres humanos, maior a carga das inibições dinâmicas sofridas direta ou indiretamente por querelas dos adultos, uma vez que restringe o seu livre jogo de vitalidade emocional, e menos conseguem se defender criativamente delas.

É apreendido, que muitas vezes, a criança ocupa o lugar do sintoma no laço conjugal, ela que é convocada quando este encontra-se inconsistente, na tentativa de preencher uma falta, já que a relação de cada um dos parceiros frente ao Outro, não instituiu a complementariedade tão sonhada. E então, o que os pais desejam ou esperam de um filho? Em comum, que ele se torne um fetiche social, um aluno exemplar, com boas notas, rodeado de amigos e absurdamente feliz – sem faltas para mostrar no Social. Um número cada vez maior de crianças são trazidas à clínica, e a mesma questão me é imposta caso a caso: o que existe, pois de não comunicável em palavras que se imobiliza e fixa num sintoma? É para essa investigação que não cheguemos à nenhuma conclusão enquanto analistas, mas, que um problema seja lançado.

Mediante ao nó clínico que se configura um filho enquanto símbolo do “fruto do nosso amor”, é nele encarnado a promessa de responder ao ideal da perfeição e desejo dos pais de que ele viesse a completá-los. Ao psicanalista clínico, lhe é importante escutar para além do que é manifesto no discurso da queixa parental. Cabe sempre ao analista, escutar as lacunas do texto, e não o texto discursivo do enunciado (o dito) – escutar os tropeços nas palavras, os lapsos, isto é, as formações do inconsciente. Nesse sentido, o trabalho inicial a ser feito é com os pais, para assim possibilitar que eles reconheçam e suportem a alteridade do filho, que pela lógica dialética é, ao mesmo tempo, semelhante e absolutamente diferente deles.

Referências Bibliográficas:
DOLTO, Françoise. O caso Dominique. Editora WMF Martins Fontes, 1971, 2010;
DOR, Joel. Introdução à leitura de Lacan: O inconsciente estruturado como linguagem, 1985. Editora Artes Médicas Sul LTDA, Série Discurso Psicanalítico;
MANNONI, Maud. A primeira entrevista em psicanálise. Elsevier Editora Ltda, 1980, 2004;
VÉRAS, Maria. Artigo: A dialética da demanda e do desejo em Psicanálise com Crianças, 2019.

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Postado por Clínica Holos

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