Isolamento Social e Solidão

A pandemia do coronavírus é uma ameaça para nossas vidas, traz consigo imediatamente a possibilidade da morte, evoca também os riscos de perdemos um ente querido, um familiar, um amigo. Mas além dessa grave ameaça, o covid-19 nos trouxe também a necessidade do isolamento social como única maneira de mitigar os efeitos da crise global. Com o isolamento, precisamos enfrentar não apenas a já difícil ameaça à vida, mas também as complicadas relações de sofrimento que o isolamento implica. Finalmente a sós e isolados em casa na maior parte do tempo, nossas angustias surgem da forma mais implacável: o que significa para o sujeito moderno estar a sós consigo mesmo?

Muitas pessoas estão isoladas e sozinhas em seus isolamentos, essa condição de solidão pode afetar drasticamente a saúde mental de um indivíduo, provocando sintomas de ansiedade, depressão ou pânico. Mas por que é tão difícil estar só? Para entender essa importante questão, a psicanálise nos oferece uma explicação que perpassa primeiro pela constituição do sujeito humano. Em Os Instintos e seus Destinos (1915), Freud explica que quando chegamos ao mundo, somos recebidos por outros, não importa quem sejam (pais, cuidadores, avós, abrigos, orfanatos), um bebe humano não sobrevive sozinho, precisa receber alimento e proteção. Somos um dos bichos que nasce de forma mais prematura, com maior dificuldade de autonomia no início da vida. Essa condição faz com que imediatamente nos insiramos em relações com outros, nas relações com pessoas. Não só isso, mas também devemos a esse cuidado inicial a nossa própria probabilidade de sobrevivência. Um dos elementos essenciais para a sobrevivência do organismo é a alimentação, e foi por isso que Freud localizou na amamentação o primeiro vínculo de importância do ser que nasce com as outras pessoas no mundo: somos nutridos. O outro assume então a importância de fonte da alimentação, equivalente a condição de existência do bebe que vem ao mundo e que precisa ser alimentado. O que a psicanálise freudiana percebeu foi que nesse ato, nesse gesto fisiológico, biológico, acontecia o primeiro processo de desenvolvimento afetivo entre o bebe e um outro ser no mundo. Começam então a serem estabelecidos os primeiros vínculos, as primeiras relações, esses vínculos são de necessidade, mas também são de afeto. Um dos primeiros aprendizados do bebe humano, segundo Freud, é a capacidade de distinção entre ele e um outro. No início, o bebe é o mundo, ele não se separa dos objetos e das pessoas. Mais tarde ele vai conseguindo fazer esse processo extraordinário de discernimento, sendo capaz de distinguir que existem outros a volta dele, e estabelecendo relações com esses outros.

A importante contribuição de outro importante psicanalista, Jacques Lacan, para esse processo descrito por Freud, foi a percepção de que antes mesmo de sermos acolhidos nos braços de alguém, somos acolhidos pela linguagem que nos afeta. A existência de um ser, começa então quando ele é falado/pensado por outros, ele existe antes mesmo de nascer como corpo físico. Então uma mamãe grávida pode dizer: – ela se chamará Maria, será uma moça inteligente, será muito amada, e etc. Quando somos falados, imediatamente somos desejados (ou indesejados) por aqueles que nos falam, somos também objeto de suas projeções e de suas expectativas sobre nós. Então, para um autor como Lacan, nossa existência em uma rede de palavras (que pode ser chamada de uma rede social), faz com que estejamos nas relações com o outro, antes mesmo de nascermos, pois a linguagem vem do outro. Somos falados, só depois falamos.

Ao analisarmos sob que condições o sujeito humano vem ao mundo e o seu desenvolvimento, fica claro que não existimos sozinhos, somos permeados pelos outros que nos cercam. Então, conseguimos entender melhor o potencial sintomático de um momento de solidão e isolamento. Fazemos muitas coisas para nos protegermos de sensações ruins, é uma das faces do princípio do prazer descrito por Freud: buscar o prazer e evitar a dor. Se a solidão pode nos colocar em uma posição desconfortável, é preciso evitá-la. O sujeito moderno é bom nisso, sempre ocupado, sempre sem tempo, estamos sempre fazendo alguma coisa para evitar a solidão. Alguns amam para não estar só, outros fazem sexo, outros usam drogas, outros estabelecem uma relação de vício com o trabalho, ou são viciados em jogos, ou em compras. O indivíduo faz de tudo para não estar a sós consigo mesmo, isso é perceptível no incômodo em que a maioria das pessoas sentem quando estão diante do silêncio em uma consulta de psicanálise. Ou, como diz o filósofo alemão Friedrich Nietzsche em Genealogia da Mora (1887): “(…) continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará para sempre a frase: ‘Cada qual é o mais distante de si mesmo’ – para nós mesmos somos ‘homens do desconhecimento’.

Agora, na solidão do isolamento social, os sintomas atingem o corpo de uma maneira mais evidente. É possível então que o sujeito possa tomar esse momento como uma oportunidade de autoconhecimento, um momento de angústia é um bom momento para sabermos quem nós somos. É preciso reorganizar a vida mental, se adaptar à nova realidade do cenário atual, e contar com os serviços de atendimento psicológico online que estão disponíveis. É preciso, mais do que nunca, cuidar da saúde mental.

Referências:
FREUD, S., Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
NIETZSCHE, F., Genealogia da Moral: um escrito polêmico (1887). São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

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Psicanálise