O Alcoolismo como sofrimento psíquico

“A escravidão do corpo é obra do destino e a escravidão da alma é obra do vício. O verdadeiro escravo é aquele tiranizado pelos seus próprios vícios.” (Epíteto)

O alcoolismo é uma doença grave e infelizmente comum em nossa sociedade. Se caracteriza pela falta de controle e/ou excesso na ingestão de bebidas alcoólicas e possui repercussões extremamente negativas na vida de um sujeito, podendo chegar a contribuir para perda de desempenho no trabalho, deterioração dos vínculos sociais, além de apresentar forte comorbidade com transtornos mentais como depressão e ansiedade. O alcoolismo se manifesta de diferentes formas de acordo com a personalidade e a estrutura psicológica de cada pessoa. Por isso, ao contrário do que se poderia imaginar, ser alcoólatra não significa necessariamente beber em quantidade, existem pessoas que só precisam de um ou dois copos de cerveja para desencadear um estado de embriaguez vinculado ao alcoolismo, o que se chama de intoxicação patológica ou idiossincrática. Já outras sentem a necessidade de beber todos os dias, inclusive em casa e sozinho, e não conseguem passar um dia sem ingerir álcool, caracterizado como síndrome de dependência.

Como diagnosticar o alcoolismo?

Como toda classificação patológica, deve-se levar em consideração os sintomas relevantes, mas também a duração e a intensidade destes. Algumas perguntas norteiam a anamnese: com que frequência a pessoa bebe? Que quantidade de álcool ingere normalmente? A bebida usualmente leva o sujeito ao estado de embriaguez extrema? Faz o sujeito adotar comportamentos agressivos? A bebida leva o sujeito a um estado de tristeza? Prejudica suas relações com a família e amigos? Atrapalha seu rendimento no trabalho? São algumas das perguntas que norteiam uma avaliação diagnóstica sobre o alcoolismo.

Tratamento do alcoolismo

O tratamento do alcoolismo pode ser realizado por diversos meios. Existe o tratamento com medicações psiquiátricas, com terapias, terapias em grupo, redes públicas de tratamento (CAPS) e grupos de apoio (Alcóolicos Anônimos). No caso da terapia, é possível para além da dependência química e do efeito biológico do álcool no organismo, que o sujeito entenda as causas que o levam a beber de maneira nociva. Abrindo o caminho para uma nova relação consigo e com a bebida, na qual possa superar os danos e limitações provocas pelo vício.

Para psicanálise, muitas drogas (lícitas ou ilícitas) entram da dinâmica psíquica do indivíduo como forma de lidar com a falta, a frustração, ou dificuldades para lidar com o real da existência. Substâncias psicoativas tendem a propiciar um momento de prazer ou um instante de apagamento das dores do sujeito, uma fuga (ou perda) da realidade. “Perda da Realidade na Neurose e na Psicose” é um texto de Freud de 1924 em que ele trata de como processos de neurose possuem características em comum com processos de psicose. Parece uma tendência do psiquismo humano se defender ao se afastar da realidade em busca de um mecanismo de prazer que torne o insuportável mais palatável.

O vício ocorre quando após a fuga a realidade retorna, o sujeito se vê obrigado a beber novamente para uma nova evitação e assim sucessivamente. Ao mesmo tempo, doses de álcool que antes eram suficientes começam a não bastar (o organismo começa a adquiri tolerância a bebida) e é preciso beber em maiores quantidades. O caminho leva a autodestruição, mas por que um organismo tenderia a se fazer mal? Em Além do Princípio de Prazer (1920) Freud indica que existe uma tendência pulsional no corpo que levaria a sua própria destruição, o inconsciente não é movido apenas pela obtenção do prazer, mas também para obtenção do desprazer e da destruição.

Segundo os psicanalistas Antônio Alves Xavier e Emir Tomazelli, em seu livro “O Idealcoolísmo”, o tratamento do alcoolismo é difícil pois o sujeito tende a ter uma relação de completude com a bebida, dificultando o apelo a qualquer ajuda ou auxílio, dessa forma a possibilidade de transferência com um psicanalista fica dificultada. Ainda assim, é possível haver sucesso no tratamento quando é possível humanizar o sujeito que faz a sua análise, auxiliando-o a entrar em contato com as insuportáveis faltas e frustrações de sua vida que contribuem para seu adoecimento. A difícil posição em que se encontra o alcóolatra pode mudar, é o que diz a psicanalista Virginia Galvão: “Através do processo de análise esta posição tende a se modificar, a confrontação com a falta pode passar a ser uma possibilidade, a partir das suas construções”. O fim do alcoolismo é a passagem para uma posição ética de responsabilidade pelo próprio sofrimento, posição que permite ao sujeito abandonar a posição de escravo em relação ao álcool, assumindo as diretrizes de sua vida.

Referências
XAVIER, A. TOMAZELLI, E. O Idealcoolísmo, Casa do Psicólogo, 2012.
FREUD, S. O Mal-estar na Civilização, Novas Conferências Introdutórias E Outros Textos {1930-1936}. Companhia das letras Vol.: 18, 2010.
FREUD, S. História de uma Neurose Infantil (“O Homem dos Lobos”), Além do Princípio do Prazer E Outros Textos {1917-1920}, Companhia das Letras Vol.: 14, 2010.
GALVAO, Virgínia Lúcia Britto S. Gozo e alcoolismo. Cogito, Salvador, v. 3, p. 91-93, 2001. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-94792001000100011&lng=pt&nrm=iso. acessos em 15 jan. 2020.

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Postado por Raphael Reis

Psicanálise