O Consumismo como Forma de Adoecimento

No mundo contemporâneo consumir é a regra, dentro do sistema econômico, o consumo é parte de um processo mais amplo de produção de bens e serviços, assim como uma etapa na cadeia de organização do trabalho (meio de produção dos bens que serão consumidos). O consumo, dentro desta visão, é a aquisição daquilo que é necessário para a vida de cada um, e é visto como normal. Já o consumismo, por sua vez, seria o comportamento de comprar de forma descontrolada e exagerada (as vezes sem ter condições) produtos e serviços, e que muitas vezes são supérfluos. Estaríamos todos nos tornando consumistas? Afinal, quem vive somente com o que necessita? E quais os efeitos psicológicos de um comportamento consumista?

Na psicanálise chamamos o modo moderno de produção de bens e serviços de discurso capitalista. O discurso capitalista é responsável por estabelecer as regras das relações entre as pessoas e o mundo em que vivem, essa relação é sempre de compra e venda, tudo tem um preço. O ápice dessa ideologia veio com a célebre conclusão: “tempo é dinheiro”. O discurso capitalista assim contribui para a crescente construção de um mundo em que tudo precisa acontecer rápido (afinal perder tempo é perder dinheiro) e que a ansiedade se torna cada vez mais banal. Assim o capitalismo também transformou o consumo no meio através do qual o sujeito estabelece as bases de quem ele é, o que levou a jocosa inversão da fórmula de Descartes: “compro, logo sou”.

Consumir muito, a necessidade de não perder tempo e só saber se afirmar a partir do consumo, são apenas alguns dos efeitos do discurso capitalista que geram questões importantes e que tem impacto psicológico na vida das pessoas. É assim que o consumismo aparece associado a quadros de sofrimento psicológico e acaba por adquirir o status de vício. Assim como qualquer outro vício (fumar, beber, jogar e etc.) comprar se torna uma compulsão que não se pode controlar. Geralmente vinculado a quadros de ansiedade e depressão, ele funciona como uma forma de aliviar determinados sintomas, sempre numa tentativa de evitar algum tipo de sofrimento. Então a pessoa começa a comprar por estar estressada, por estar triste, por estar ansiosa, e com frequência o faz sem perceber. O consumismo se torna tão nocivo quanto qualquer forma de adoecimento mental, criando, ele mesmo, uma relação de sofrimento e dependência.

O mais perigoso do mundo contemporâneo é que o discurso capitalista normalizou os atos de consumo exagerado, ao ponto de estarmos quase todos vivendo como consumistas adoecidos. Somos a sociedade que, como descreveu Oscar Wild, “sabe o preço de tudo, mas não conhece o valor de nada”. Nesse sentido, a vida e os ensinamentos do filosofo grego Diógenes se tornam para nós imediatamente uma provocação. Integrante da escola cínica, pregava uma vida simples, vivida com humildade e ética. Era um crítico dos exageros e da vida valorizada apenas como meio de obtenção de objetos materiais. Conta-se que um dia esse homem extremamente desapegado foi visto no principal e maior mercado de Atenas, estava a olhar os objetos vendidos com muito interesse. Como as pessoas o conheciam, acharam aquilo estranho, até que alguém o perguntou: – Diógenes, o que você está fazendo aqui? Ao que o filósofo respondeu: – Estou olhando tudo que eu não preciso para viver.

Referências
SILVA, Paulo José Carvalho da; BEER, Paulo Antonio de Campos. Sobre o cinismo em um tempo de identificações irônicas. Trivium, Rio de Janeiro , v. 3, n. 1, p. 84-98, jun. 2011 . Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-48912011000100009&lng=pt&nrm=iso. acessos em 12 fev. 2020.
TEIXEIRA, Vanessa Leite; COUTO, Luís Flávio Silva. A Cultura do Consumo: Uma Leitura Psicanalítica Lacaniana. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 3, p. 583-591, 2010.

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Postado por Raphael Reis

Psicanálise