O Desejo de Morrer

Em 1914 Freud escreveu um texto chamado “Nossa Atitude perante a morte”, no qual revela a maneira como parecemos encarar essa etapa da vida. Ele observou que apesar da morte ser considerada um fim inescapável, do qual todos temos que acertar as contas, nós parecemos viver como se não fossemos morrer. Temos uma tendência de deixar o tema da morte de lado, de não falar sobre ela com pessoas que estejam gravemente doentes e, sobretudo, temos muita dificuldade em pensar na nossa própria morte. O inevitável se torna o impensável: no nosso inconsciente somos imortais. Mas o que está em jogo nessa atitude diante da morte? E o que dizer do suicídio, como a nossa maneira de dar sentido a morte afeta o modo de lidar com o desejo de morrer?
A ideia da morte, uma vez considerada insuportável (principalmente a nossa própria, ou a de pessoas que amamos), seria banida de nossa vida consciente e estaria destinada ao inconsciente. Se o inconsciente não nos afetasse, isso não seria um problema. Mas o homem, que é afetado pelo inconsciente, mostra esses sinais todas as vezes em que a morte se anuncia no horizonte do real. Sentimos medo pavoroso diante da possibilidade da morte, descargas emocionais nos paralisam, somos acometidos por tristezas profundas, estupor. Diante da morte de um ente querido produzimos luto, perdemos nós também o sentido da vida. Fazemos sintomas com a morte pois de saída ela foi reprimida no inconsciente e não podemos falar sobre ela, não tivemos a chance de elaborar. A psicanálise não cessa de oferecer essa oportunidade: fale, pois dizer diz(solve) sintomas.
Nossa atitude diante da morte explica as razões de termos tanta dificuldade em lidar com o tema do suicídio. Se morrer é o insuportável, o suicídio é o desejo do insuportável? Freud separou duas tendências observáveis no funcionamento psíquico do homem, por um lado a tendência para vida, orientada para a satisfação, a qual chamou pulsão de vida; e por outro lado a tendência para a destruição, a qual chamou de pulsão de morte. Somos constituídos por essas duas tendências e em situações específicas pode-se observar a prevalência de uma delas. O que ocorre na maioria dos casos de suicídio é uma predominância da pulsão de morte pelo surgimento de questões inconscientes que não puderam ser elaboradas em algum momento passado do indivíduo. Voltamos assim ao insuportável. A realização de uma psicanálise é a possibilidade de falar e entrar em contato com os elementos inconscientes que estão vinculados ao desejo de morrer e, dessa forma, reequilibrar a dinâmica da relação entre pulsão de vida e pulsão de morte.

 

Por Raphael Dela Cela

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