Reflexões sobre o fim de ano – ansiedade, preocupação, tristeza e angústia

O Tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.

Poesia atribuida à Carlos Drummond de Andrade

A venda de enfeites de Natal, viagens e de ingressos para festas no Reveillon anunciam o fim do ano e sintomas como ansiedade, angústia e depressão tendem a aumentar. Os mais diversos compromissos e metas determinados no início do ano são cobrados em seus resultados e eficácia e quando não foram alcançados, a frustração e ansiedade aumentam. Associado a essas cobranças ainda vem gastos extras com presentes e viagens ou passeios do fim do ano ou a cobrança de fazer alguma coisa diferente nesses dias de férias. Também vencem alguns impostos e outros pagamentos no início do Novo Ano o que pode gerar preocupações para os menos preparados.

A ansiedade, no entanto, se apresenta durante todo o ano. No ritmo acelerado que vivemos atualmente, em dose alta, porém, pode dificultar a vida cotidiana, diminuindo a capacidade de concentração, da execução das tarefas e do cuidado de si. Assim, cada vez mais pessoas buscam melhorar sua qualidade de vida, de sono e de suas relações sociais através de medicamentação psiquiátrica e psicoterapia. Frequentemente, as pessoas usam uma espécie automedicação para acalmar a ansiedade e angústia, essa realizada com medicamentos aos quais tem acesso ou álcool e outras drogas. Surgem também outras compulsões ao consumo ou atividades freneticamente exercitadas para anestesiar os desconfortos de corpo e alma. Aliviar os sintomas pode até trazer mais calma por um tempo, um sono mais tranquilo ou mais desempenho no trabalho, mas aprender a fazer escolhas, lidar com conflitos e suportar frustrações exige mesmo fazer mudanças, aceitar suas dificuldades e buscar aprender novas estratégias e recursos.

A ansiedade e suas companhias

A oferta ampla de informações via internet possibilita rápidas respostas a muitas perguntas e dúvidas, mas ao mesmo tempo pode confundir e deixar o leitor confuso. Assim, podem surgir dificuldades de escolher um tema de cada vez a ser lido, refletido e talvez compartilhado com alguém. Dessa forma, um acúmulo de pensamentos, desejos, e tarefas podem se emaranhar e sobrecarregar a capacidade de resolução. Em vez de acrescentar algo à vida da pessoa, podem produzir ansiedade, preocupação e estresse, gerando cobranças e frustração quando não se consegue encaminhamentos e êxito ou quando esse se estende para além das expectativas. Assim, trazem consigo frequentemente tristeza e irritação, promovendo efeitos negativos para a convivência na família e no trabalho podendo, como uma bola de neve, gradativamente agravar o estado emocional da pessoa.

Existe também a ansiedade por algo muito esperado, como, por exemplo, a visita de um amigo ou do início de uma viagem, que faz, talvez, que a pessoa não consiga dormir ou se concentrar bem até esse momento chegar, mas, uma vez chegado o momento esperado, a ansiedade termina. Ela não tem término previsto, no entanto, quando a pessoa tiver abarcado compromissos demais, tarefas a serem executadas em tempo mínimo ou curto demais. Assim, as preocupações e o medo de não dar conta, podem causar sintomas físicos, como taquicardia, dificuldades na respiração. Se não for cuidada, a ansiedade e estresse crônico podem gerar pressão alta, baixa resistência a viroses e outras doenças ou desatenção em seus movimentos que pode levar a acidentes ou exposição a riscos sem necessidade.

Alto nível de exigência e autocobranças

A necessidade de manter seu emprego e uma imagem de pessoa jovem, ativa, radiante e alegre sem problemas, com muitos amigos e curtidas nas redes sociais podem levar também a autocobrança e grande exigência em relação a imagem. Esses incluem preocupações e investimento num corpo que mostre força, jovialidade e sensualidade, de preferência isento de sinais de envelhecimento, e outros símbolos que atestam uma vida bem-sucedida. Estas exigências, são parte da época atual em que vivemos e trazem frustrações, já que exigem investimentos financeiros e de tempo e competem com a aceitação dos ciclos naturais da vida que implicam em perdas, como o envelhecimento.

Frustrações, tristeza e angústia

Lidar com frustrações não é fácil para ninguém. Caso a família não tenha podido oferecer recursos para enfrentar perdas, aprender como os erros ou fazer escolhas, precisa se buscar e experimentar orientações e recursos no mundo e na vida. Trata-se aqui de um processo de aprendizagem e amadurecimento, visto que escolher algo – e com isso perder aquilo que NÃO escolheu – traz geralmente conflitos e angústia. E quando a angústia se mostra através de um aperto no peito, um vazio inexplicável e/ou um mal-estar difuso é muito bom poder contar com alguém de confiança, seja um amigo ou um profissional como um psicólogo para superar um momento desse na vida.

Outra frustração frequentemente encontrada acontece quando se percebe que gostaria que o outro reagisse e se comportasse como esperado, frequentemente igual como nós mesmo. Mas, uma vez que o outro viveu sua própria história, tendo outros pais, escola, amigos e viveu então diferentes experiencias e aprendizados, é mais provável é que ele reaja diferente da forma que esperávamos. Por outro lado, adaptar-se para que o outro não fique triste ou chateado também nos priva de autorrealização, independência e motivação de viver. Assim, perceber que não temos poder sobre a reação do outro, pode provocar um sentimento de impotência, raiva ou tristeza, mas, também nos preparar para surpresas, experiências diferentes e uma ampliação de nossa visão de mundo.

Todo esse excesso, seja de informações, de pressa ou de dificuldades de perder, de refletir, analisar e dividir suas metas em etapas, termina restringindo o tempo em que a pessoa poderia se ocupar com sua trajetória de vida, dar sentido a ela, sonhar, fazer planos de ação, divididas em pequenos passos para poder comemorar cada etapa cumprida. E, também, caso o êxito não tenha sido possível, fazer os devidos ajustes dos planos de ação. Ao mesmo tempo, a ocupação intensa com a imagem e o consumo dificultam o aprofundamento nas relações. E é justamente a construção e o cultivo de amizades que podem oferecer recursos valiosos para superar e amadurecer através dos desafios e dificuldades que surgem no curso da vida.

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Psicóloga clínica, especialista em Psicologia e Ação Social, Análise Bioenergética e Gestalt-Terapia, embasados na psicanálise.