Setembro Amarelo: Mês da Prevenção ao Suicídio

O suicídio é um fenômeno social devido ao impacto que ele provoca nos familiares, amigos e na
sociedade como um todo, considerando a relação Homem-Sociedade defendida por Durkheim o suicídio pode ser considerado uma ação pública com efeitos privados, visto que não é o indivíduo que se mata e sim a sociedade através dele. Durkheim ainda constatou que quanto maior a intensidade do vínculo de pertencimento a um grupo solidamente constituído, menor é a probabilidade de ocorrência de suicídio.

Números e estatísticas

É um tema que mobiliza por significar a interrupção do ciclo da vida. Estudos comprovam que o ato
suicida é crescente e as pesquisas não apontam procedimentos eficazes para contê-lo. Contudo, o manual do suicídio de Neury Botega oferece aos profissionais da área de saúde, mecanismos para identificarem a ideação suicida, na tentativa de reduzir o número de suicídios no Brasil – 32 pessoas a cada dia-.

Observa-se que a falta de uma discussão exaustiva sobre o suicídio e suas vulnerabilidades, não impede o aumento do óbito por essa causa. Considera-se necessário tentar entender as motivações que levam um crescente número de pessoas (homens, mulheres, adolescentes e até mesmo crianças) a atentarem contra a própria vida, todos os dias, em diferentes regiões do mundo, seja em grandes metrópoles ou em pequenos vilarejos, e em muitos casos obterem êxito.

Segundo dados da OMS (2014) mais de 800 mil pessoas cometem suicídio no mundo, a cada ano. A cada 40 segundos uma pessoa e estima-se que para cada pessoa que consegue realizar o ato de matar-se vinte tentam e não conseguem. É a segunda causa de morte entre pessoas com 15 a 29 anos no planeta – a primeira é a violência. O Ministério da Saúde, 2018, divulgou que no Brasil o suicídio é a quarta causa de morte nessa faixa etária. Ainda de acordo com a pasta, existem causas que não ficam claras se seriam acidentes ou se a pessoa teria provocado a própria morte, o que aumentaria esses números.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (2019), trouxe algumas crenças equivocadas sobre o suicídio, apresentadas por Botega (2015), com base nas informações da World Health Organization (WHO,2014), que podem dificultar as ações de prevenção. São elas:

  • Se eu perguntar sobre suicídio, poderei agir de modo a induzir a pessoa;
  • A pessoa ameaça se suicidar apenas para manipular;
  • Quem quer se matar se mata mesmo;
  • O suicídio só ocorre quando há uma doença emocional;
  • No lugar dele, faria o mesmo;
  • Veja se da próxima vez você acerta;
  • Quem conclui o ato é bem diferente de quem apenas tenta;
  • É difícil mudar.

Ainda segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (2019), entre os países da
América Latina, o Brasil ocupa o oitavo lugar em coeficiente de mortalidade por suicídio por 100 mil
habitantes. Contudo, a análise de números absolutos indica que o Brasil permanece entre os 29 países em que há um constante aumento do suicídio. Um estudo de seguimento realizado a partir de 1980 mostra um aumento de 21% até o ano 2000 e de 29,5% até 2006 (BOTEGA,2015).

O maior índice de aumento do suicídio no Brasil se encontra na região Norte, com um aumento de 77,7%. Na região nordeste, o crescimento também é expressivo sendo 51,7%; os estados da Paraíba e da Bahia superaram em mais de duas vezes a média nacional.

Motivações que levam ao suicídio

Para Marback e Pelisoli (2014), o comportamento suicida envolve ideação, planejamento, tentativa e suicídio propriamente dito, comportamentos em geral motivados por crenças de desesperança, caracterizada por uma visão de futuro vazio, sem perspectivas.

A Comissão de Prevenção de Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP (2009) chama atenção para as situações de vulnerabilidade como a depressão, isolamento social, crise conjugal e familiar e outros transtornos psíquicos.

Contudo, deve-se observar que a vinculação do ato suicida, como regra, à um transtorno mental, é uma forma de reduzir o sofrimento, a angústia e a desesperança à falta de saúde mental, como se a falta de perspectivas e sentido para o indivíduo continuar vivo pudessem ser enquadradas.

Essa leitura reducionista poderia aquietar a sociedade e o tema suicídio deixaria de ser discutido por outras questões e perspectivas, sendo vinculado apenas aos transtornos mentais, rotulando, ainda mais, as pessoas que o cometem.

Prevenção e posvenção do suicídio

Para a prevenção deve-se observar:

Mudança no olhar – o suicida não quer se matar, o suicida quer se livrar do sofrimento;
Sinais de alerta – preocupação com a morte, comentários (vou desaparecer, queria nunca mais acordar, vou deixar vocês em paz, etc.), isolamento, desfazer-se de objetos, tranquilidade repentina, dentre outros.

O que se deve fazer

Olhar para os lados, perceber as pessoas, acolher, verificar as queixas, orientar ajuda profissional
especializada, identificar rede de apoio (família, religião, amigos), abraçar.

O que NÃO se deve fazer

  • Condenar- covardia, fraqueza.
  • Banalizar- subjetividade do sofrimento.
  • Dar opinião: falta de Deus, quer chamar atenção.
  • Brigar- você não pode fazer isso!
  • Frases prontas – “a vida é boa”.

Para a posvenção

Empatia, escuta, ter noção objetiva ou subjetiva do tamanho do problema, valorização/ reconhecimento do sofrimento, estratégias para companhia, acompanhamento psicológico.
Os psicólogos devem estar vigilantes e perceptivos a qualquer sinal de angústia e desesperança, visando organizar os pensamentos negativos das pessoas que, por ventura, apresentem sinais de ideação suicida, ressignificando as suas distorções cognitivas, agindo preventivamente e defendendo a ideia de que a saída para o sofrimento está na própria vida. Se não for possível evitar essa decisão, que a posvenção seja realizada com o empenho necessário aos familiares dos que se foram e, principalmente, aos sobreviventes de si mesmo.

Quem substituiu Beethoven?

Quem substituiu Rembrandt?

Quem substituiu Ayrton Senna?

Quem substituiu João para Maria?

Você também é insubstituível. Ninguém vai substituir você!

 

DISQUE 188 -CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA/CVV
Iêda Domitilo -Psicóloga, Esp. em Psicologia Clínica: TCC, Esp. em Administração de RH.

 

Veja também:

Falar sobre suicídio pode aumentar os índices?

Cansei de viver ou não estou dando conta de sofrer?

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