Suicídio: Vida e morte de mãos dadas

A morte é algo que nos assusta, e o suicídio como negação concreta da vida, nos choca! Mas será que o “fim” mais terrível só acontece por não termos tido a coragem de dar “fins” para o que não nos servia mais?

De acordo com um provérbio espanhol, “Quem vive bem morre bem, quem vive mal morre mal”. Se o escuro dá sentido ao claro e o fraco ao forte, então a morte dá sentido à vida. Na mesma proporção que a vida é nosso bem maior, a morte é nossa certeza maior. Mas na nossa cultura, a morte nos é escondida e falar sobre ela nos parece até ofensivo e, por consequência, não apreendemos sobre o verdadeiro valor e significado da vida.   

A morte não é só física

Ao longo da minha prática clínica como psicóloga, percebo que vida e morte caminham juntas. A morte física visível nos agride, mas ignoramos as muitas mortes psíquicas, invisíveis, e nos “matamos” quando não temos a coragem de colocar um fim no que não nos serve mais. Ou seja, quando atuamos buscando perfeições e aprovações, quando copiamos ou repetimos modelos sem questionarmos se nos são válidos, quando nos mantemos em relações afetivas fracassadas e nocivas ou quando o dever se impõe em nossas vidas e o prazer deixa de existir ou é vivenciado com culpa. Mas se muitas vezes a razão nos engana, o corpo não admite as enganações. Ele tudo registra, tudo guarda, tudo processa. Seja o enfrentamento de uma doença, a perda de alguém querido, um desemprego, ou outra perda qualquer.

Como consequência do conflito entre o que o corpo sente e o que a razão não dá conta, travamos uma guerra interna, que aumenta nosso estresse, que apresenta sintomas como uma depressão, ansiedade, ou outro transtorno que alimenta nas nossas entranhas um monstruoso sofrimento. E como se estivéssemos no centro de um furacão, experimentamos uma explosão de emoções como medos, angústias, inseguranças e tantas outras, que vão nos encurralando em um “beco sem saída” e “nosso mundo” fica pequeno, apertado, sufocante e sufocado, e matar “o corpo que sofre” pode parecer a única opção para acabar com a “dor de existir”.  Ou será a “dor de não existir”?

Escolha viver, ponha um fim no que não te faz bem!

Nossas vidas não se limitam a uma doença ou a um coração partido ou a um desemprego ou a outra perda qualquer. Precisamos entender que as perdas também fazem parte da vida, pois quando chegamos ao mundo, nosso cronômetro já está ligado: perdemos “o ninho seguro”, a infância, a inocência, a pele tenra, os dentes, entes queridos, empregos, amigos e tantas perdas mais! Que possamos nos permitir as dores do perder, para que não engulamos e sufoquemos nossas dores mais íntimas, caminhando em um mundo de faz de conta; que possamos desconstruir crenças e papéis quando estes não têm mais serventia, que não tenhamos que ser fortes e persistentes apenas para atender à uma sociedade que nos cobra. Mas que possamos ser fortes para lutarmos pelo o que acreditamos e assim podermos deixar para trás as âncoras que nos aprisionam, entendendo que a morte física inevitavelmente chegará e que enquanto ela não chega, podermos experimentar a vida com todo o seu esplendor de sentidos e paradoxos, com altos e baixos, dores e prazeres, ganhos e perdas, estando plenos na nossa caminhada e comprometidos com o nosso evoluir.

Logo, não vamos esperar que a dor simplesmente acabe. Não vamos empurrar para “baixo do tapete” algo que, quanto mais cedo for cuidado, menores serão os danos.  Pois, como afirmou Carl Gustav Jung, médico suíço, “A vida não vivida é uma doença que pode levar à morte”. Dê um fim ao que não serve mais! Escolha viver!

“Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.” (JUNG)

¹ Os profissionais como psicólogos e psiquiatras ajudam no enfrentamento das dores psíquicas.
² Os sintomas geralmente são alertas de que algo não vai bem, que algo não serve mais, que algo precisa ser olhado, cuidado e modificado.

Dra. Ana Cristina Mascarenhas

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